quarta-feira, 11 de maio de 2011

Enquanto relia seus pequenos cadernos verdes.

Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois?
Clarice Linspector

Sentada e ajeitando as saias (como fazia sua personagem), convidou-se a moça a uma conversa.
Clarice Clarice, e ela de novo a me assombrar.
Se era clichê? Sim, sim... por vezes sentia-se assim. E era esse medo de tornar a se repetir que lhe assombrava nas últimas semanas.
Medo infundado, ria, porque a gente precisa fazer muita força para conseguir se repetir igualzinho no fim.
Rindo de novo, pensou que no fim "é mesmo uma pena que as coisas não se repitam.
Já pensou? os primeiros 100m pedalados sem ajuda das rodinhas; o primeiro feijão que virou planta e a primeira vez de qualquer outra coisa, de novo?"

Mas precisava recomeçar de alguma forma. Vontade, vontades e coisa boa. Andavam de noite na rua, batucadas, copos nas mãos. Na outra página o manual de normalização aberto, o caderno sobre a mesa, a dor no ombro e o iogurte que faziam em casa. De dia perdia-se entre as amostras e de noite encontrava-se nos papéis.

A propósito: tinha ela passado o dia inteiro lembrando do cheiro das casas onde tinha morado nos últimos anos. Horas e horas se divertindo sozinha com as paixões que inventava de mentira, e as saudades que sentia de verdade.

Fim.
(Provisório. Até que um melhor apareça.)

sábado, 9 de abril de 2011

Separação

Coração par
tido.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Tá.

Como quando tinha saído da casa do pai usando os novos óculos e relógio branco que ganhou no natal, senta ela e começa a contar o que tinha acontecido naquele dia. Tinha tido um pesadelo onde aquele que não merece citação lhe mandava embora e ela ia. Ia embora e chorava para uma casa toda feia e toda suja, onde todas as paredes pareciam más, e onde o quintal parecia uma versão portoalegrense de Metrópolis, com novos prédios altos e sujos e onde ela morava só.
Começa a insatisfação ao despertar pela escolha que o pensamento fez de com quem se sonha. Com tanta gente!, tanto índio (ai que dor!), tantos braços fortes... logo com ele, para quem ela já não tem mais paciência (admitindo para si que sempre achou seu sorriso feio, com aquela curva dos dentes e da boca que lhe conferia um aspecto de boneco). Logo com isso, que não importava mais.
Mas tá.
Passou o dia com cara jururu "meio assim". No fim da tarde corta o cabelo: é "moça solteira dona do nariz". Volta pra casa, e ama o cheiro e som das tábuas do chão.


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Para a Estrela.

Andava na chuva, a saia erguida com a mão. Não era frio, mas também não era calor. O cabelo era molhado. Sentia a dor: as roupas amarelas, o brilho. Mais um ponto, uma linha outra cor, e ali ao lado ficava faltando uma ponta.
Eu não saberia mais o que dizer. E eis o que improvisei:

"Nos velórios da minha vida sempre chove. É assim, fim e começo. Alterando a ordem as coisas passam a parecer um simples jogo de palavras.
Quando eu escrevo (e consigo Eu escrever) é como se pudesse fazer a música da hora: carros, assovios ao longe, vozes, som das bolhas de refrigerante (no chão, do lado direito), a chuva e tudo o mais (que é o silêncio). A espera acabou, e tudo é hoje e agora.
Agora de novo.
Depois do sono mudança, viajem (e as saudades, de novo e sempre), músicas e pessoas e todas as coisas novas e velhas.
Sempre chove nos velórios da minha vida".

Agora (no amanhã do ontem) faz sol.
Casam-se as raposas.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O custo da constância...

"À hora violácea, quando os olhos e as costas

Às mesas de trabalho renunciam, quando a máquina humana

aguarda

Como um trepidante táxi à espera,

Eu, Tirésias, embora cego, palpitando entre duas vidas,

Um velho com as tetas engelhadas, posso ver,

Nessa hora violácea, o momento crepuscular que luta

Rumo ao lar, e que do mar devolve o marinheiro à sua casa;

A datilógrafa que ao lar regressa à hora do chá,

Recolhe as sobras do café da manhã, acende

O fogareiro e improvisa seu jantar em latas de conserva.

Suspensas perigosamente na janela, suas combinações

Secam ao toque dos últimos raios solares.

Sobre o divã (à noite, sua cama) empilham-se

Meias, chinelos, batas e sutiãs.

Eu, Tirésias, um velho de enrugadas tetas,

Percebo a cena e antevejo o resto.

- Também eu aguardava o esperado convidado.

Chega então um rapaz com marcas de bexiga,

Um insignificante balconista de olhar atrevido,

Um desses tipos à-toa em que a arrogância assenta tão bem

Quanto a cartola na cabeça de um milionário de Bradford.

O momento é agora propício, ele calcula,

O jantar acabou, ela está exausta e entediada.

Ele procura então envolvê-la em suas carícias

Não de todo repelidas, mas tampouco desejadas.

Excitado e resoluto, ele afinal investe.

Mãos aventureiras não encontram resistência;

Sua vaidade dispensa resposta,

E faz da indiferença uma dádiva.

(E eu, Tirésias, que já sofrera tudo

O que nessa cama ou divã fora encenado,

Eu, que ao pé dos muros de Tebas me sentei

E caminhei por entre os mortos mais sepultos.)

Ao despedir-se, concede-lhe o rapaz um beijo protetor

E desce a escada escura, tateando o seu caminho . . .

Ela volta e mira-se por um instante no espelho,

Quase esquecida do amante que se foi;

No cérebro vagueia-lhe um difuso pensamento:

"Bem, já terminou; e muito me alegra sabê-lo."

Quando uma bela mulher se permite um pecadilho

E depois pelo seu quarto ainda passeia, sozinha,

Ela a mão deita aos cabelos em automático gesto

E põe um disco na vitrola."

T.S. Eliot, A Terra Desolada

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Hoje, que é dia de Iemanjá, e o segundo dos dobrados - 01/01, 02/02

"Eu faço festa, eu taco fogo, que não nego não
Eu te regalo e me fresqueio,
com meu olho te como ao meio..."

Bom, daí eu ia pegar o primeiro avião barato que parecesse pela frente.
Daí, até chegar aquela morena, meio grega meio não, que se punha a me olhar.
A me olhar, e a me ver, ali, nuzinho, sem música nenhuma.
E ela soberana. Soberana e sozinha.
The song? Nanã, de um outro volume do mesmo de ontem.

Depois ganhou a rua e sumiu. Dela ficou o "oh", e o moreno aqui do lado, doido e eriçado também.
Dizem que enquanto esperava escrevia, e tinham podido ler algumas palavras: "corpos - nus- de jovens é que eu gosto."

Câmbio e desligo!

domingo, 16 de janeiro de 2011

"Geek romantic comedy", ou "Amor Impossível"

-Mas eu não sei interagir!, dizia o tímido garoto de óculos grandes e dicção peculiar, tendo todo seu charme concentrado nesse detalhe.

Ela, por sua vez, nunca tinha pensando que sua paixão por pronúncias fosse a levar tão longe. Pois não é que já tinha escutado o tal jeito na fala de um colega de trabalho? É. E não é que ela sempre que possível, imitava infernizando o tal, tendo como objetivo a aceitação por parte dele de que seu problema seria facilmente resolvido caso ele finalmente decidisse freqüentar um fonoaudiólogo? É.

E agora ali, sentada no bar, esperando o tal carinha chegar.

Ele, por sua vez, preferia ficar em casa, perguntando e respondendo coisas de e para si.

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